Substituir um alimento não significa, por si só, uma escolha melhor
- 30 setembro 2026, quarta-feira
- Consumo

FOTO LEE MYUNGSEONG/ UNSPLASH
Há sabores que pertencem quase naturalmente ao verão. O cheiro de um grelhador aceso ao final do dia, as brasas no ponto certo, uma mesa entre família ou amigos. Das sardinhas (que nesta edição servimos em conserva) às febras, costeletas, espetadas ou a um bom naco de carne, os grelhados fazem parte da nossa memória gastronómica, numa ligação ancestral entre carne e fogo, e continuam a ser um ritual de verão.
Mas, por detrás de cada peça de carne, existe um universo complexo. Fala-se da pegada ambiental da pecuária, das emissões e dos recursos naturais, mas também do seu papel na manutenção dos territórios rurais, na economia local e na autonomia alimentar.
A indústria responde com tecnologia, eficiência e redução do desperdício. À mesa junta-se a política comercial. Num mercado globalizado, falar da carne produzida em Portugal implica olhar para o que importamos e exportamos. As relações UE-Mercosul voltam a colocar em evidência a competitividade, a rastreabilidade e a reciprocidade das exigências. A qualidade não pode ficar subordinada ao preço. Nas importações e compras da grande distribuição, dada a pressão para assegurar preços baixos e campanhas promocionais permanentes, não se deverá abdicar da exigência quanto à origem, qualidade, segurança, rastreabilidade ou condições de produção. Competir pelo preço é legítimo; fazê-lo à custa da qualidade é um risco.
A confiança constrói-se também na coerência entre o que se exige à produção nacional e o que aceitamos colocar no mercado.
Se queremos saber de onde vem o que comemos, devemos também querer saber como foi produzido. O bem-estar animal é hoje uma preocupação pública, atenta às melhorias das condições na criação, transporte e abate. Entre o animal e a indústria, o produtor e o consumidor, o território nacional e os mercados internacionais, existe uma fileira em transformação. Nesta edição da TecnoAlimentar, a nossa entrevista junta dois importantes players dessa fileira, a produção (extensiva) e o retalho, num exemplo de como a proximidade entre ambos pode servir melhor o consumidor.
E nem tudo se mede em nutrientes ou emissões: contam também os hábitos. A carne permanece ligada à gastronomia portuguesa e a um património que atravessa regiões e gerações. Mas os consumidores mudam e, com eles, o mercado. Depois do entusiasmo em torno do meat-less, talvez estejamos a entrar numa fase menos radical e de escolhas mais ponderadas. O consumidor parece menos interessado em escolher entre “carne” e “não carne” e mais atento à qualidade, valor nutricional, quantidade, origem, transformação e preço. Talvez o desafio seja mais simples: comer melhor, conhecer melhor e escolher melhor. No final deste verão, o convite é simples: olhar para além da grelha. A qualidade dos alimentos preparados refletir-se-á nas próximas escolhas do consumidor. A qualidade, sustentabilidade, saúde e bem-estar animal, quantidade e preço são as diferentes dimensões de uma mesma escolha que, mais do que seguir tendências, deve ser sobretudo informada. Contamos, por isso, com a academia, técnicos e produtores!
Diretora da TecnoAlimentar
Se quiser colocar alguma questão, envie-me um email para info@tecnoalimentar.pt
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