Hortícolas fora das especificações dão origem a novos alimentos

D.R.
Margarida Caferra
Hortícolas que não cumprem as especificações comerciais, mas permanecem seguros para consumo, estão a ser transformados em ingredientes e produtos alimentares de maior valor no âmbito do projeto europeu ROSETTA. O projeto já permitiu desenvolver mais de 100 formulações com tecnologias relativamente simples e pretende reduzir o desperdício alimentar e promover a circularidade no setor agroalimentar.
A abordagem foi apresentada no Centro de Investigação Alimentar da Teagasc, em Ashtown, na Irlanda, durante uma sessão que reuniu produtores primários, fabricantes de alimentos, responsáveis políticos e outros intervenientes da cadeia de valor alimentar. O encontro incidiu sobre o caso-piloto irlandês do ROSETTA, dedicado à valorização de frutas e hortícolas que ficam fora das especificações de comercialização.
Financiado pela União Europeia através do Horizonte Europa e com uma duração de três anos, o projeto analisa o impacto das normas de comercialização no desperdício alimentar e pretende desenvolver soluções sustentáveis para a utilização de alimentos que não cumprem essas especificações, mas continuam próprios para consumo.
No projeto-piloto irlandês, hortícolas rejeitados pelos critérios comerciais são utilizados no desenvolvimento de ingredientes e novos produtos alimentares. “Pensar de forma um pouco diferente cria oportunidades reais para prevenir o desperdício alimentar. Ao encararmos os hortícolas que podem não cumprir os padrões estéticos como um recurso e ao integrarmos o pensamento circular no desenvolvimento de novos produtos, podemos criar soluções práticas”, afirma Maeve Henchion, investigadora principal da Teagasc.
Mais de 100 formulações desenvolvidas
A metodologia aplicada no projeto assenta no Systematic Food Valorisation Framework, desenvolvido por Angelo Galatolo, tecnólogo da Teagasc. Entre os produtos obtidos encontram-se pão, talos de cenoura fermentados e bombons de chocolate.
“O que é particularmente interessante é a grande variedade de produtos que desenvolvemos, desde pão e talos de cenoura fermentados, refletindo o crescente interesse pela fermentação e pela saúde intestinal, até bombons de chocolate”, refere Angelo Galatolo. Segundo o investigador, os resultados demonstram o potencial de valorização de hortícolas rejeitados pelos critérios comerciais.
A Teagasc indica que foram desenvolvidas mais de 100 formulações através de tecnologias relativamente simples. A abordagem segue um princípio de desperdício zero e apresenta potencial para ser aplicada a outras culturas agrícolas.
A passagem para uma escala superior enfrenta, contudo, limitações. Entre os principais obstáculos identificados estão a falta de instalações para secagem e processamento em grande escala, requisitos regulamentares e de segurança alimentar e a necessidade de financiamento, colaboração e desenvolvimento de mercado. A ligação entre produtores e potenciais transformadores foi igualmente apontada como um dos desafios.
O encontro abordou ainda a perceção dos consumidores relativamente aos alimentos produzidos a partir de matérias-primas valorizadas. Segundo Shay Hannon, responsável pelo National Prepared Consumer Food Centre da Teagasc, o projeto demonstrou que os hortícolas excluídos das especificações comerciais “podem continuar a ter valor” e ser transformados em produtos alimentares com interesse dos consumidores.
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