Resíduos de pickles podem ser reutilizados para produzir ómega 3

Resíduos de pickles podem ser reutilizados para produzir ómega 3

FOTO ANSHU A/ UNSPLASH

Margarida Caferra

Investigadores da Universidade de Hiroshima demonstraram que resíduos líquidos resultantes da produção de pickles podem ser utilizados no cultivo de um microrganismo marinho para produzir os ácidos gordos ómega 3 DHA e EPA. O processo permite valorizar um resíduo da indústria alimentar, embora a sua reutilização sucessiva apresente limitações.

Uma equipa da Universidade de Hiroshima demonstrou que três tipos de resíduos líquidos de tempero provenientes da produção de pickles podem ser utilizados como meio de cultivo de Aurantiochytrium sp. L3W, um microrganismo marinho heterotrófico capaz de produzir ácido docosahexaenoico, conhecido como DHA, e ácido eicosapentaenoico, ou EPA.

Os resultados do estudo foram publicados em julho na revista científica LWT - Food Science and Technology. O trabalho procurou avaliar uma forma de aproveitar resíduos do processamento alimentar para obter estes dois ácidos gordos ómega 3.

Os investigadores analisaram resíduos líquidos provenientes de três tipos de tsukemono, os tradicionais pickles japoneses. Foram estudados resíduos de Hiroshimana, rabanete sakura e umeboshi.

Estes resíduos contêm carbono orgânico dissolvido e azoto, que constituem fontes de nutrientes para o crescimento do microrganismo. Contêm, contudo, ácido láctico, que pode limitar tanto o crescimento como a produção de ácidos gordos polinsaturados.

Resíduo de Hiroshimana apresentou os melhores resultados

Entre os resíduos analisados, o líquido proveniente dos pickles de Hiroshimana permitiu obter os valores mais elevados de DHA e EPA.

Utilizando o resíduo sem diluição e sem esterilização, com pH inicial de 7, a biomassa obtida apresentou teores de 60,6 mg/g de DHA e 2,5 mg/g de EPA. Apesar dos resultados, os valores permaneceram abaixo dos obtidos no meio de cultura utilizado como controlo.

Uma das particularidades identificadas no estudo foi a possibilidade de utilizar o resíduo em condições não estéreis, evitando uma etapa prévia de esterilização. 

Os investigadores testaram também a reutilização do meio depois do primeiro cultivo. O microrganismo voltou a crescer, demonstrando que o resíduo podia ser utilizado novamente, mas os teores de DHA e EPA foram inferiores.

Ácido láctico limita reutilização

Com a reutilização do meio, a concentração de ácido láctico aumentou. Depois de duas reutilizações do resíduo de Hiroshimana, atingiu 2,7 g/L.

Os investigadores confirmaram o efeito inibidor do ácido láctico sobre Aurantiochytrium sp. L3W, identificando assim um fator que limita o número de vezes que o resíduo pode ser reaproveitado para a produção de DHA e EPA.

O resultado mostra que a reutilização é possível, mas também evidencia a necessidade de considerar a composição do meio ao avaliar a continuidade do processo.

Valorização de resíduos da indústria alimentar

Segundo os cálculos apresentados pela equipa, uma fábrica média de pickles de Hiroshimana gera aproximadamente 100 toneladas de resíduos líquidos por ano.

A utilização desse volume para o cultivo do microrganismo poderia permitir obter cerca de 26 kg de DHA e 810 g de EPA, de acordo com a estimativa dos investigadores.

O estudo apresenta, assim, uma possibilidade de valorização de um resíduo líquido da indústria alimentar através da produção de compostos de interesse nutricional. 

A equipa considera ainda outras possíveis aplicações para o DHA e EPA produzidos desta forma. Entre as possibilidades referidas está a utilização na alimentação de galinhas para obtenção de ovos enriquecidos e como fonte de DHA e EPA em alimentos para peixes de aquacultura.

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