Economia circular: transformar o desperdício do peixe de aquacultura em novos produtos

FOTO NATALLIA PHOTO/ UNSPLASH
O processamento industrial do peixe de aquacultura gera grandes volumes de subprodutos, tradicionalmente classificados como resíduos, que representam um desafio ambiental e económico para o setor. Na União Europeia, cerca de 45% da biomassa de peixe processado corresponde a subprodutos, incluindo cabeças, vísceras, espinhas, peles e escamas, totalizando centenas de milhares de toneladas por ano.
Este artigo analisa o potencial da economia circular como enquadramento para a valorização destes materiais, destacando a sua elevada riqueza em proteínas, lípidos ricos em ácidos gordos ómega-3, minerais e compostos bioativos. São discutidas as principais estratégias de valorização, nomeadamente a hidrólise enzimática para obtenção de péptidos bioativos, a extração de colagénio, gelatina, óleos ricos em EPA e DHA e a recuperação de minerais como o cálcio. O artigo aborda ainda as aplicações destes compostos na alimentação humana e animal, cosmética, biomedicina, agricultura sustentável e produção de energia, bem como os benefícios e desafios associados à implementação de modelos circulares. Por fim, são discutidas perspetivas futuras centradas no desenvolvimento de biorrefinarias aquícolas e na inovação tecnológica como motores da transição para sistemas produtivos mais sustentáveis.
ECONOMIA CIRCULAR E SUBPRODUTOS DE PEIXE DE AQUACULTURA
A economia circular constitui um modelo alternativo ao paradigma linear tradicional (“extrair–produzir–descartar”), promovendo a utilização eficiente de recursos, a minimização de resíduos e a regeneração de sistemas naturais. No contexto da aquacultura, a aplicação deste conceito é particularmente relevante, dado o elevado volume de subprodutos gerados ao longo da cadeia de valor do peixe, sobretudo nas etapas de processamento industrial. Esta abordagem contribui não só para a redução do impacto ambiental da atividade aquícola, mas também para o reforço da sustentabilidade económica do setor, promovendo a diversificação das fontes de receita e uma utilização mais eficiente de recursos.
Com base em dados da FAO, Eurostat e EUMOFA, a produção aquícola da União Europeia situa-se em torno de 1,1 milhões de toneladas anuais. Estima-se que até 75% do peixe de aquacultura seja sujeito a processamento industrial, correspondendo a aproximadamente 0,8–1,0 milhões de toneladas por ano (em equivalente de peso inteiro). Considerando que, em média, cerca de 45% da biomassa processada é convertida em subprodutos, o volume anual de desperdício de peixe gerado pela aquacultura na UE pode ser estimado entre 360 000 e 450 000 toneladas. Os principais subprodutos incluem cabeças, vísceras, espinhas, pele e escamas. Estes materiais apresentam uma composição nutricional caracterizada por elevados teores de proteínas de alto valor biológico, lípidos (incluindo ácidos gordos ómega-3 de cadeia longa), minerais e compostos bioativos, o que os torna particularmente atrativos para processos de valorização.
ESTRATÉGIAS PARA VALORIZAÇÃO
Entre as abordagens de valorização mais estudadas destaca-se a hidrólise enzimática, que permite a libertação controlada de péptidos bioativos a partir das proteínas presentes nestes subprodutos. Estes péptidos podem apresentar diversas atividades biológicas, incluindo propriedades antioxidantes, anti-hipertensivas, anti-inflamatórias, antidiabéticas, antimicrobianas e moduladoras do sistema imunitário, possibilitando a sua utilização em áreas como o desenvolvimento de alimentos funcionais, nutracêuticos, suplementos alimentares e ingredientes bioativos para aplicações específicas na indústria alimentar e da saúde. O controlo das condições de processo e a seletividade enzimática são determinantes para maximizar a bioatividade, a estabilidade e a reprodutibilidade dos compostos obtidos.
A extração de colagénio e gelatina a partir de peles, escamas e espinhas constitui outra estratégia de valorização com elevado interesse tecnológico. O colagénio de origem marinha, para além do seu valor nutricional, apresenta propriedades funcionais interessantes, sendo utilizado em produtos gelificados, sobremesas e alimentos reformulados, incluindo aplicações direcionadas a grupos com necessidades nutricionais específicas. Paralelamente, a valorização da fração lipídica permite a recuperação de óleos ricos em ácidos gordos ómega-3, nomeadamente EPA e DHA, que podem ser purificados, estabilizados ou microencapsulados para incorporação em matrizes alimentares.
A recuperação de minerais, em particular o cálcio a partir de espinhas e escamas, tem igualmente vindo também a ganhar relevância, permitindo o desenvolvimento de ingredientes minerais naturais para, por exemplo, fortificação de alimentos. (...)
Marta Monteiro, PhD, Investigadora do grupo de Alimentos e Qualidade do Pescado do CIIMAR - Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental
Carla Pires, PhD, Investigadora do Laboratório de Biotecnologia da Divisão de Aquacultura e Valorização do Instituto Português do Mar e da Atmosfera, Membro do grupo de investigação Biotecnologia Emergente e Processamento do Pescado do CIIMAR
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