O valor nutricional e a segurança alimentar dos produtos de aquacultura

FOTO AMY VANN/ UNSPLASH
A aquacultura tem registado um crescimento acelerado nas últimas décadas, afirmando-se como uma componente central dos sistemas alimentares globais ao responder à procura por proteína animal de elevada qualidade e ao reduzir a pressão sobre os recursos haliêuticos. Nesse contexto, este artigo caracteriza o valor nutricional dos produtos de aquacultura, analisa a influência da alimentação na sua qualidade nutricional e discute os principais aspetos de segurança alimentar.
Os produtos aquícolas destacam-se, de uma forma geral, por terem um elevado teor de proteínas de alto valor biológico, um perfil lipídico que os torna uma das principais fontes alimentares de ácidos gordos ómega-3 (EPA e DHA) e uma contribuição relevante de vitaminas e minerais essenciais. Também se evidencia que o perfil nutricional varia sobretudo em função da formulação das rações e pode ser modulado através de estratégias inovadoras com ingredientes alternativos e suplementação específica. Em termos de segurança alimentar, salienta-se que os principais perigos são de natureza biológica e química, o que exige a adoção de boas práticas ao longo da cadeia, o cumprimento da legislação e a implementação de sistemas de gestão como o HACCP. A aquacultura apresenta-se, assim, como uma solução alimentar nutritiva, segura e sustentável.
Valor nutricional dos produtos de aquacultura
Os produtos de aquacultura assumem um papel cada vez mais relevante na alimentação humana, não apenas pela sua crescente disponibilidade, mas também pelo seu elevado valor nutricional. Peixes, moluscos e crustáceos provenientes de sistemas de aquacultura constituem fontes importantes de proteínas de alto valor biológico, com perfis de aminoácidos essenciais adequados às necessidades nutricionais humanas. Estas proteínas apresentam elevada digestibilidade, desempenhando um papel importante no crescimento, na manutenção da massa muscular e no suporte ao funcionamento do sistema imunitário.
Para além do seu conteúdo proteico, estes produtos destacam-se pelo seu perfil lipídico, sendo uma das principais fontes alimentares de ácidos gordos polinsaturados ómega-3 de cadeia longa, nomeadamente o ácido eicosapentaenóico (EPA) e o ácido docosahexaenóico (DHA). Estes ácidos gordos ómega-3 são vitais para a saúde humana, especialmente para a composição estrutural das membranas celulares, o desenvolvimento e funcionamento ótimos do cérebro e do sistema nervoso, particularmente durante a fase neonatal, e o funcionamento saudável do sistema cardiovascular. Protegem, portanto, contra doenças cardiovasculares e doenças neurodegenerativas, como a doença de Parkinson e a doença de Alzheimer. É também conhecida a sua associação à redução do risco de obesidade e de processos inflamatórios, bem como a efeitos benéficos na visão. Uma vez que o organismo humano não consegue produzir estes ácidos gordos por si só, estes devem ser obtidos através da dieta.
Mais ainda, os produtos de aquacultura apresentam, em geral, baixo teor de gorduras saturadas (conhecidas por contribuírem para diversas doenças não transmissíveis), quando comparados com outras fontes de proteína animal e, dependendo da espécie, apresentam uma densidade calórica muito baixa. Além disso, contribuem de forma relevante para o aporte de micronutrientes essenciais, incluindo vitaminas lipossolúveis (como as vitaminas A e D), vitaminas do complexo B (nomeadamente a vitamina B12) e minerais como o cálcio, zinco, ferro, iodo, magnésio, potássio, fósforo e selénio (alguns dos quais frequentemente deficitários na população ocidental). Estes micronutrientes desempenham papéis fundamentais na saúde humana, por exemplo, no sistema imunitário, no metabolismo, na saúde óssea, na função tiroideia e no funcionamento do sistema nervoso. A sua presença reforça, assim, a importância do consumo de produtos de aquacultura como parte de dietas saudáveis e equilibradas, particularmente em populações com consumo limitado deste tipo de produtos.
O consumo regular de produtos de aquacultura é, portanto, incentivado nas diretrizes alimentares europeias devido aos seus benefícios para a saúde. Por exemplo, o painel da Food-Based Dietary Guidelines da União Europeia recomenda um consumo de duas a três porções semanais de peixe em vários países da Europa, como a Irlanda, França, Espanha, Grécia, Suécia e Islândia. Contudo, estas recomendações nem sempre são cumpridas pela maioria das populações europeias.
Apesar dos produtos de aquacultura constituírem uma componente essencial de uma alimentação equilibrada, importa salientar que o seu valor nutricional não é uniforme, podendo variar em função da espécie produzida, das condições ambientais, do sistema de produção e, em particular, da alimentação fornecida. (...)
Helena Oliveira, IPMA – Instituto Português do Mar e da Atmosfera, I.P., Divisão de Aquacultura, Valorização e Bioprospecção, CIIMAR/CIMAR-LA – Centro Interdisciplinar de Investigação Marinha e Ambiental, Universidade do Porto
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